Quanto mais fácil ficou tirar notas, menos parece que nos lembramos das coisas. Pessoalmente, acho isto fascinante.
Hoje temos o Notion, AI summaries, tablets, transcrições automáticas, apps para tudo, gravações, clouds, pastas, subpastas e pastas dentro de pastas. Nunca tivemos tantas ferramentas para guardar informação e mesmo assim toda a gente continua constantemente a dizer “espera aí que já me esqueci”.
Existe um estudo de Princeton e UCLA que descobriu algo estranho. As pessoas que tiravam notas no computador escreviam muito mais do que as pessoas que escreviam à mão. Cerca de mais 65% de palavras.
Mas quando chegava a altura das perguntas que realmente interessavam, as conceptuais, as que mostram se percebeste mesmo alguma coisa, tinham resultados significativamente piores.
E a parte mais absurda é que uma semana depois, mesmo com acesso às próprias notas, continuavam piores.
Ou seja, escreviam mais, mas percebiam menos.
Porque aparentemente o cérebro não gosta assim tanto de copiar. Gosta mais de processar.
A parte interessante é que quem escrevia no computador tendia a transcrever quase palavra por palavra, enquanto quem escrevia à mão era obrigado a resumir, interpretar e pensar “ok, mas o que é que interessa realmente aqui?”. E pelos vistos é exatamente aí que a memória acontece.
Na pequena fricção.
Acho que o problema é que hoje confundimos guardar informação com compreender informação e não é de todo a mesma coisa. Tenho a sensação que muita da produtividade moderna é basicamente armazenamento premium. Guardamos PDFs que nunca mais vamos abrir, screenshots, links, notas, ideias, templates e bookmarks, mas cada vez menos paramos para realmente ligar ideias, fazer esquemas estranhos, desenhar, resumir ou simplesmente pensar.
Há uma frase que li no X sobre este tema que me ficou presa na cabeça:
“The productivity ritual is an amnesia ritual.”
E custa admitir, mas acho que percebo exatamente o que quer dizer.
Porque às vezes saímos de uma reunião com quatro páginas de notas e zero ideias realmente processadas. Não compreendemos melhor o assunto. Apenas gravámos o momento.
Na Infinitebook sempre gostámos muito da ideia de quadro-branco e acho que é precisamente por isso. Um quadro-branco não parece definitivo. Não tens medo de errar, escrever uma coisa horrível, apagar, desenhar uma seta sem sentido ou voltar atrás cinco vezes. Existe uma sensação de liberdade estranha nos quadros-brancos porque não parecem um documento oficial. Parecem pensamento em estado bruto.
Talvez seja isso que continua a faltar em muitas ferramentas digitais. Espaço para pensamento imperfeito.
Existe outro conceito engraçado chamado “generation effect”. Basicamente o cérebro memoriza melhor aquilo que ajuda a construir do que aquilo que apenas recebe. Ou seja, a memória não nasce do acto de gravar informação. Nasce do esforço de reformular, reconstruir, simplificar e tentar perceber.
E talvez seja por isso que escrever à mão continua a parecer diferente. Mais lento, mais confuso, mais humano, mas também mais real.
Talvez o objetivo de um caderno nunca tenha sido guardar ideias.
Talvez sempre tenha sido ajudar-nos a encontrá-las.
Se tiveres interesse em explorar mais este tema, deixo aqui alguns dos estudos e artigos que serviram de base para esta reflexão:
“The Pen Is Mightier Than the Keyboard” — Mueller & Oppenheimer (Princeton / UCLA, 2014):
https://brucehayes.org/Teaching/papers/MuellerAndOppenheimer2014OnTakingNotesByHand.pdf
“You’ll Absorb More If You Take Notes by Hand” — Harvard Business Review:
https://hbr.org/2014/05/youll-absorb-more-if-you-take-notes-in-longhand
“Consequences of cognitive offloading: Boosting performance but diminishing memory”:
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8358584/
“The generation effect: Delineation of a phenomenon”:
https://www.researchgate.net/publication/232485723_The_generation_effect_Delineation_of_a_phenomenon
